20150629

Desentraçar



Tenho o maior gosto se quiserem passar pelo ainda principiante sítio para "desentraçar" sobretudo desenhos (é só clicar, embora pareça ,eu sei,tão longe...)

20150617

Música para aeroportos



Eu não tenho ouvido para a música. Limito-me a fechar os olhos e ouvi-la. Não me recordo de uma única referência numa pauta ou frase musical referindo este órgão para semelhante coisa.
Saber fechar os olhos não estando a dormir é uma arte, isso posso assegurar, disse-te.
Há uma outra coisa fantástica que é nunca se falar daquilo que não se sabe.
Nessa altura tive a necessidade de te explicar porque passava tanto tempo a ouvir Brian Eno e a olhar para o mar, calado.

Recordo-me de nos termos rido porque era música “For Airports”. O que nos fez rir foi esta conversa ter ocorrido nas falésias da costa vicentina e eu ter dito “precisamente”, com um ar absoluto de quem sabe do que fala.
Ainda devo ter acrescentado, mas um pouco mais tarde, o Verão chega sempre de repente e parte rápido, como um punhal, ou uma traição. Sei do que falo. Fiz as contas.

“Aproxima-se a época em que os corpos, até chegar Setembro, começam a entrar dentro das histórias que vivem ou, por causa das marés, criam dentro de si. Mas isso é indiferente, porque o resultado final é idêntico.” Tenho quase a certeza de que foi mais ou menos isto que me respondeste. Ponho entre aspas porque nunca costumavas falar assim.

Há noites em que não conseguimos dormir na nossa cama. A razão, tirando um ou outro pormenor técnico que tem a ver com molas e colchões, é simples. A nossa cama é o único móvel fixo em casa. Estou cada vez mais convencida de que se dormíssemos de outra forma não constituía problema de maior partir.
Isso disseste-me, e tenho a certeza porque fecho os olhos e sei que nunca mais nos voltámos a ver. Volto a ouvir a «música para aeroportos» e tenho a certeza. Fecho os olhos. Não consigo adormecer e a única coisa que me vem com clareza à cabeça é a ideia de a cama ser sempre a mesma.



20150616

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Normalmente hesito entre Proust, os espaços abertos e coisa nenhuma. Regra geral prefiro coisa nenhuma.
Agora, com esta espécie de cansaço, escolher é-me mais difícil ainda.
Não me apetece nem palavras nem sons,  mesmo sob a forma de canto.
Música barroca instrumental, ou vagas, era o que me convinha. Tudo o resto me parece apenas barulho.
O maior estrago de todos é saber que isso me é impossível.
No fundo desconfio que possa haver uma estúpida ideia de imortalidade por debaixo da capa da minha preguiça.



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