20140817

Nunca me lembro de Agosto ter conseguido chegar ao fim


Nunca me lembro de Agosto ter chegado ao fim. Setembro sempre entrou por esse mês dentro com o seu cortejo de desaparecimentos , saudades antes de tempo e consequentes nostalgias.
Todos os antigos amores de verão partiam antes da altura.

O verão e as conchas vazias nos bolsos ou algas secas a marcarem páginas de livros lidos durante o estio sempre foram sugados Setembro dentro, como marés vivas.

20140815

Agosto







Conheço sítios onde só se consegue chegar a pé, outros de carro ou de barco. Outros ainda pela memória e pelos sonhos, que são os que me interessam mais.
Prefiro este meio de transporte alimentado a amores e amizades antigas e sal. Há uma sabedoria da pele a este respeito que não troco por nenhum mapa.



20140701

A casa



Nos meus sonhos, entre os seis e os doze ou treze anos, era recorrente aparecer sempre a mesma casa, uma casa onde nunca encontrei qualquer pessoa e que ainda tinha alguma mobília, muito antiga e com cortinas invulgarmente grenás e pesadas.
 O mobiliário era quase todo constituído por móveis de parede. O soalho parecia-me enorme, assim como os tectos, invulgarmente altos. Não me recordo de ter visto qualquer janela.
Nela entrava por umas escadas de madeira intermináveis que me davam acesso a um número imprevisível de divisões, já que a casa, no seu interior, se alterava, criando ela própria novas escadas, pátios interiores, divisões inesperadas. O meu sonho iniciava-se sempre já a meio da subida dessas escadas.
A casa, embora reduzida a menos de um terço do mobiliário e sem qualquer habitante, não apresentava qualquer sinal de pó ou de degradação nos materiais. Nunca lá encontrei algum livro ou apesar das suas dimensões, qualquer escritório ou biblioteca.
Este sonho repetiu-se incontáveis vezes a tal ponto que, ainda hoje, se encontrasse esse sítio, o reconheceria sem dificuldade.

Nas próximas fotografias, é como se regressasse simbolicamente a esse lugar passados quarenta e dois anos, e o meu maior prazer vai ser descobrir não uma mas várias janelas… e elas darão para o mar, porque é assim que eu quero e me apetece.

20140623

Postagem aberta a um anónimo

                                                                                                                         (pode clicar para ampliar)

Caro/a anónimo
Não sei quem mais criou a expressão ruinologia e tenho mais onde ocupar o meu tempo do que em provas de paternidade.
De tempos a tempos, com uma insistência e propósito indelicados, tinha sido confrontado com comentários anónimos sempre em torno desta questão.
O último, que é provavelmente do mesmo (é tão fácil criar um perfil blogger só para maçar), confrontava-me, ufano, com a exposição que a artista plástica Rosângela Rennó apresentou na 29ª Bienal de Arte de São Paulo.  Aí, no texto de apresentação, apareceria com todas as luzinhas a acender e a apagar a palavra usurpada.
Dei-me ao trabalho de ver a data da bienal: setembro- dezembro de 2010… este blogue foi criado em 2008, depois “apagado”, refeito de humores e cá caminha desde 2010…
Mas para que seja, espero, a última vez que abordo o assunto, coloco uma página do suplemento literário do jornal “O Setubalense”, dirigida pelo poeta João Raposo Nunes, onde colaborava com textos intitulados Ruinologias, datados de 1989…….
Chega?
Obrigado.
Ps- prometa ao menos que não me mina a paciência com tudo o que aparecer depois de 1989…


20140621

Aproximações erráticas à ruinologia



A ruinologia não aprecia o decrépito, embora procure a natural ação do tempo sobre as construções e a glória humana. O Tempo, esse “Grande escultor”, como dizia Yourcenar, é o seu único aliado.

 Não se congratula com a ruína no sentido em que o fazia Constantin-François Volney em 1787, no decorrer de uma viagem ao Egipto e à Síria, em que as ruínas, politicamente, confirmavam a queda do poder e por isso o extasiavam. Tão pouco recomenda materiais prevendo o aspeto que venham a ter , como J. Ruskin, em 1849.

 Parece ficar mais a dever a Delille que, em 1782, se insurgiu a favor da “inimitável marca do tempo” que tanto o fascinava. A ruinologia não deixa no entanto de ser uma espécie de geografia interior e, sob esse aspeto, um cenário.

O ruinólogo não toca nem altera o que quer que seja. Regressa, esperando o tempo que for necessário. Nesse cálculo está um conhecimento que aproxima o ruinólogo do amante de livros antigos, embora não conheça nenhum livro que inicie, na arte, o ruinólogo amador.

Só percebe de ruinologia quem sonha. Nesse sentido ela pode ser romântica, na aceção que foi atribuído à palavra para caraterizar parte do século XIX.
A ruinologia só é uma ciência se a for no sentido em que afirmava um monge cisterciense, segundo o qual o Amor é uma forma de conhecimento. A poesia é-o e, nesse sentido, a ruinologia não o é menos.


(para a Joana Paiva e o João Carlos Vilhena, embora por motivos diferentes)