20141008

20140918

As palavras



E apetecia-te morrer. Claro que é uma palavra da qual não sabes nada. Invocar uma palavra em vão e com desconhecimento é um ato leviano.
Sei para onde estavas a olhar quando o disseste. Conheço o poder dessas falésias como conheço o poder de uma cadeira virada para a planície sob um alpendre, a sul.
Invocar palavras em vão é um ato insensato sobretudo porque nunca saberemos que raio de efeitos podem provocar esses textos em quem os lê.

Tinhas obrigação de saber que quem nos ama ouve essas palavras como se as lesse.  

20140829

Talvez um pouco sobre Setembro também


Na realidade preciso de coisas extremas e imensas.
Se quiser ser rigoroso, e uma vez que impus a mim mesmo referir apenas duas, devo então mencionar as gymnopédies e uma semente que consegui que crescesse, praticamente criada à mão num vaso que levei para onde ia, ao longo de umas loucas férias na costa vicentina. São coisas destas a que me refiro.
Das que mais me impressionaram até hoje foi o silêncio e a leitura. Se tivesse que escolher apenas uma escolhia o silêncio da leitura.
Escrever é uma matéria que não cabe aqui. Tal como o silêncio, assunto que me interessa muito.
Ai sim… dizes-me. Disseste que ias falar sobre faróis por causa daquela fotografia que me intriga.
Mas é precisamente sobre isso que estive a escrever, respondo, com a cara de quem confia que uma mão cheia de perceves uma cerveja e um beijo o podem salvar, para além da convicção de que esteve a escrever precisamente sobre isso. Talvez um pouco sobre setembro, concedo, embora não veja muito bem que diferença faz.


20140825

Sonhos e esgotamentos

 
 

1

Aproximo-me de um lago com a intenção de lhe atirar uma pedra.
Existem imensos seixos nas margens desse lago cujo tom azul-escuro sugere águas frias e profundas.
Agarro num deles. Nesse sonho demorei uma imensidão de tempo a escolhê-lo não sei porquê.
Estive um tempo inusitado a sopesá-lo na mão, rolando-o entre o olhar e os dedos.

2
Quando o atirei, primeiro ouviu-se o tradicional pouuf da queda na água.
O que mais estranhei foi não ter causado a mínima ondulação, seguido do desaparecimento de qualquer impacto. Pura e simplesmente os sons desapareceram.
Esse desaparecimento, que não tinha nada a ver com a surdez, resgatou-me de um cansaço imenso.
Durante os breves instantes que durou esse momento ,percebi perfeitamente as pessoas cujo alimento é o silêncio.

3
Gostava de ir andando até me deixar tapar por um lago de silêncio, pensei.

4
Os sons normalmente maçam-me.
Abro uma exceção para um som que me transporta para as tonalidades da esperança. Refiro-me à flauta dos amola-tesouras. É um som que já ouvia desde a infância. Tornou-se raro e permanece antigo. Dizem que adivinha a chuva, o que o torna familiar e suportável. Não seria por sua causa que o meu lago de silêncio secava.

 

 

 

 

20140817

Nunca me lembro de Agosto ter conseguido chegar ao fim


Nunca me lembro de Agosto ter chegado ao fim. Setembro sempre entrou por esse mês dentro com o seu cortejo de desaparecimentos , saudades antes de tempo e consequentes nostalgias.
Todos os antigos amores de verão partiam antes da altura.

O verão e as conchas vazias nos bolsos ou algas secas a marcarem páginas de livros lidos durante o estio sempre foram sugados Setembro dentro, como marés vivas.

20140815

Agosto







Conheço sítios onde só se consegue chegar a pé, outros de carro ou de barco. Outros ainda pela memória e pelos sonhos, que são os que me interessam mais.
Prefiro este meio de transporte alimentado a amores e amizades antigas e sal. Há uma sabedoria da pele a este respeito que não troco por nenhum mapa.